quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Liberdade de expressão (IV)*


O bom gosto e o bom senso arriscam-se a ser os maiores e piores inimigos da liberdade de expressão. Correndo o melindroso risco de falar em nome dos meus companheiros de Cooperativa, o politicamente correcto não têm grande espaço de manobra neste blog. É aborrecido, incomoda e, por conseguinte, fica reservado para a pena de outros.

*Post efectuado de acordo com a nota 4 da 4ª Lei.

4 comentários:

Anónimo disse...

Politicamente correcto é o que se verifica na atitude totalitarista de deificacao da liberdade de expressao.

'O bom gosto e o bom senso arriscam-se a ser os maiores e piores inimigos da liberdade de expressao'

Com a devida vénia, os factores estao incorrectamente invertidos (apesar de politicamente correctos).

A liberdade de expressao, sim, tem a potencialidade de ser nao só a melhor amiga como, sobretudo, a maior e pior inimiga do bom gosto e do bom senso.

A liberdade de expressao é ESSENCIAL para a discussao do que seja bom senso e bom gosto e ainda para a funcao máxima de definicao da fronteira destes com a falta de bom senso e o mau gosto.

Bom senso, bom gosto vs. falta de bom senso, mau gosto sao pontos cardiais que devem reger as relacoes humanas.

A liberdade de expressao é o INSTRUMENTO que os facilita, que os poe a descoberto, é o eixo central sobre o qual gira a seta da bússola.

Confundir o Norte do bom senso e bom gosto com o eixo liberdade de expressao (deslocando aquele para este - o conceito de bom senso atinge a sua definicao perfeita na liberdade de expressao - ou colocando este na posicao daquele - a liberdade de expressao é a regra superior máxima do bom senso) equivalerá sempre a um caminho sem rumo.



Wolfman

Diogo aka o Torgal disse...

Seguindo o teu raciocínio - que como bem sabes discordo a 100% - pergunto: quem será então o "operador" da liberdade de expressão como instrumento de chegada a essa «ilha utópica» a que chamas bom senso/bom gosto? Quem terá a "bússula" na mão?

Abração. Diogo

Anónimo disse...

'Chou doutor, com o devido respeito, mais uma vez insisto, a Liberdade de Expressao ('operada' ou nao) nao deverá ser a preocupacao central.

A preocupacao sobre se há 'operadores' de alguma coisa deve incidir sobre aqueles que tentam 'operar' (distorcendo, relativizando, invertendo) o conceito de bom senso (mais que o de bom gosto ou bom tom) e nao sobre se existem 'censores' a liberdade de expressao - essa, sim, uma utopia quando tomada como direito absoluto.

O bom senso nao é um ponto de 'chegada', um 'ilha' a atingir. É um ponto cardial com forca atractiva natural, guia supremo do direito natural ao livre pensamento e do direito natural a livre expressao.

Atribuir forca atractiva, estabelecer o ponto cardial na liberdade de expressao leva a indiferenciacao valorativa entre uma sala de aula no Maria Matos e uma sala de estar no Júlio de Matos.

É indiferente quem tem a 'bússola na mao' desde que essa pessoa tome como certo e aceite que deslocando-se no sentido do ponteiro caminhará para Norte. (Ainda que esse Norte esteja em deslocacao lenta e permanente em virtude do movimento de translaccao da Terra).

Abaixo a irresponsabilidade do jornal dinamarques!

Abaixo as reaccoes criminosas dos radicais islamicos!

PS - A ver se alguém sequer mencionou a Santa Liberdade de Expressao quando, há um ano, o príncipe Harry de Inglaterra foi obrigado a pedir desculpa publicamente por ter vestido um uniforme nazi numa festa de mascarados.

(Já agora, diz-me de tua justica. Neste caso, quem tem bom senso e quem tem falta dele - o livre-expressante príncipe ou os dictatoriais censores dos media que o obrigaram a retractar-se publicamente?
E assumindo maior compromisso na respectiva opiniao: qual dos dois demonstrou maior grau de falta de bom senso, se é que algum deles?
E, finalmente, analisando este exemplo do príncipe Harry vs. censura, é mais importante chegar a uma conclusao e ter resposta para casos análogos no futuro (estabelecendo-se, assim, uma nova regra de bom senso) ou, simplesmente, nao ambicionar qualquer conclusao, apenas regozijando-nos com o facto de que livremente nos exprimimos sobre a questao e, mais uma vez, mantivémos firme e hirto o valor sagrado da liberdade de expressao?



Abraco,

Wolfman

Anónimo disse...

Outra maneira de o dizer (bem mais erudita e nao sujeita as limitacoes do horário laboral).

Tem a palavra Jaime Nogueira Pinto:

Um tempo «pós-moderno» que quer acabar e acha que acabou com a religião, que desconstrói os mitos e os símbolos, que dessacraliza e desencanta o mundo e a História, não ao modo dos grandes revoltados, de Sade a Nietzsche e Marx, mas de uma forma pícara, ordinária, patética de pensadores «soft», de sibaritas pedófilos, de humoris­tas boçais, vê-se, de repente, confronta­do com o «choque das civilizações».

E que civilizações? O cliché dos fazedo­res de «opinião» direitinhos é de um lado a civilização esclarecida, aberta, democrática com todos os «valores bons» - o humanismo laico, a democracia participativa, a cidadania vigilante, os direitos do homem! E do outro os fanáticos do mundo árabe, mergulhados na Idade Mé­dia, no obscurantismo, na religião, governados por autocratas, a queimarem bandeiras da UE, a apedrejarem consulados, de barbas, mal vestidos, aos gritos de Alá é grande!

Contente, o comentador de serviço arranja os bons, os maus e os vilões da história:

Os bons são os progressistas de todos os quadrantes, que têm o valor de não ter valor nenhum, que absolutizam o relati­vo, que não acreditam em nada. Mas in­comodam-se por o Papa mandar na Igreja, por os «gays» não poderem adoptar, por o Inferno se manter.

Os maus são os tais árabes tradiciona­listas, religiosos, nacionalistas e todos os povos que ainda não abraçaram o modo de vida preconizado pelos bons.

Finalmente, os vilões, os piores de todos, são os ocidentais - americanos, eu­ropeus, católicos, protestantes, agnósti­cos - que não seguem o pronto-a-pen­sar humanitário e globalizante do «só é proibido proibir». Os que entendem que para haver civilização e política - que vêm de cidade («civitas», «polis») - é pre­ciso haver valores objectivos, mitos e ri­tos, convicções, hierarquias, fronteiras, exércitos. E que dizem que a utopia liber­tária é a receita para os demagogos, para a anomia, para o vale tudo e para a tira­nia que se lhe segue.

Mas a História não é um filme cor-de-rosa em que o que vem é sempre melhor que o que foi, como julgam os que se admiram de os Romanos pensa­rem e terem água corrente, acham que a razão começou no mundo com Voltaire e a Revolução Francesa e em Portugal com os capitães de Abril e o dr. Soares. Para trás, só trevas!

Os crentes no Deus do Livro - cris­tãos, muçulmanos, judeus - têm um sen­tido do sagrado que é, coerentemente, o seu primeiro valor. Respeitam e amam Deus sobre todas as coisas e os valores – políticos, de família, de amizade, de solidariedade - são uma continuação dessa ligação ao divino. Por isso, uma ofensa à religião como representar Deus, Cristo ou Maomé gro­tescamente, é uma ofensa pessoal ao que têm de mais querido.

No Ocidente, a separação do Estado e da Igreja, do político e do religioso, vem da Reforma e da construção do Es­tado moderno, ficando o poder político desligado do poder espiritual como con­dição da paz civil. Foi assim de Nantes a Vestfália e até hoje. E demo-nos bem com a receita.

Mas a descristianização na Europa e o «progressismo» secularizante querem transformar a Igreja numa espécie de Li­ga do bem-fazer ou agência humanitária tipo UNESCO, retirando-lhe o seu pa­pel de mediadora do sagrado, entre a Ter­ra e o Céu. Para isto contam também a falta de coragem e os complexos de mui­tos cristãos. O que não se passa nos Esta­dos Unidos, nem nas igrejas novas das Américas e de Africa ou nas igrejas perseguidas e de missão das comunidades mi­noritárias na Ásia.

No mundo islâmico, o renascimento religioso, aliado a um sentimento político de nacionalismo defensivo e solidário - na linha dos Irmãos Muçulmanos - está a levar ao poder grupos como o Hamas, com que os ocidentais vão ter que contar.
Porque a partir do fenómeno árabe corânico - das cidades da Síria e do Ié­men e do nomadismo do centro da Península arábica - floresceram culturas fortes militarmente, que fundaram impé­rios, que chegaram à Península Ibérica, que tiveram a sua tecnologia e a sua lite­ratura. A decadência política dos Esta­dos islâmicos, a partir do século XVIII incapazes de enfrentar a dinâmica políti­co-militar ocidental, é sentida pelas no­vas elites do mundo islâmico, como um estigma a superar. A ideia de que os oci­dentais lhes querem impor os seus «não-valores», o secularismo e o hedonis­mo das massas que é o consumismo, tor­na-nos odiosos aos seus olhos!

Não percebemos estas reacções, por­que no Ocidente nos habituámos a dei­xar agredir os nossos valores cristãos naqueles «media» públicos, pagos (tam­bém) com os nossos impostos, ou, iro­nia suprema em Portugal, num canal originalmente católico, onde hoje num programa de «soft-porno», a despropósito, se faz uma palhaçada patética do Pai Nosso!

Não podemos deixar que as manipula­ções da rua árabe - orientadas por radi­cais cínicos sem crença alguma - e as provocações dos fundamentalistas laicos do Oeste, nos envolvam, a cristãos e muçulmanos, numa guerra religiosa.
Os que temos fé – e aqueles que não a tendo, têm o sentido do sagrado e do respeito pelo sagrado dos que estão connosco nesta «civitas», que é o mundo – não nos podemos deixar, como nos Balcãs, arrastar para uma guerra “religiosa” provocada e chefiada por ateus!



Wolfman

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